Roberta Simoni



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Por quanto você se vende?

Um pacote de pão de mel. Esse é o meu preço.  

Era assim que a minha mãe me comprava quando não tinha com quem me deixar para ir trabalhar e, considerando a criança hiperativa que fui, eu suponho que me carregar para um escritório cheio de salas e corredores para desbravar, gente transitando sem parar para todos os lados, caras novas, máquinas de escrever e botões diferentes para apertar devia ser, no mínimo, preocupante.  

Mas bastava um papel, um lápis e… um pacote de pão de mel, daqueles com cobertura de chocolate, é claro, porque eu não era boba nem nada. E eu me enfiava debaixo daquela mesa de escritório - que me dava a impressão de ser gigante na época em que eu não passava de uma miniatura de gente -, me espalhava pelo carpete e sentia que ali, entre os pés da minha mãe, eu poderia passar o resto da vida, sem precisar de mais nada.

E era tão simples ser feliz. Tão pobre e tão nobre aquela felicidade resumida num lápis, num papel e num pão de mel.  

Não sei se foi a minha mãe que contou para a minha avó, ou a minha avó quem descobriu primeiro e contou para a minha mãe que bastava um pacote de pão de mel para me calar e me convencer a fazer qualquer coisa, desde me tornar cúmplice de um crime até acompanhar a minha avó ao supermercado que, antes de aprender a fórmula mágica, só conseguia me levar sob tortura. O efeito era preciso: quando eu escutava a palavra compras, já corria para a porta de casa, de prontidão, com o braço estendido para, gentilmente, acompanhar a vovó, igualzinha ao meu cachorro quando escuta a palavra “passear”.

Eu ia saltitante, e voltava ainda mais, carregando meu pacotinho mágico nas mãos...

É tão fácil comprar uma criança, não é? Não porque elas sejam mais interesseiras do que os adultos, muito pelo contrário. A diferença é que as crianças não fazem a menor questão de esconder qualquer interesse, o que as torna muito mais “vendáveis” e fáceis de agradar.

Às vezes bate uma saudade daqueles felizes tempos em que me bastavam esses pãezinhos cobertos de chocolate para me encherem de boa vontade e entusiasmo a ponto de dar saltos de alegria pela rua.

Não sinto nenhum orgulho por ter transformado a minha satisfação em algo tão apurado e exigente para certas coisas, para outras, no entanto, eu continuo sendo vendida baratinha, a preço promocional de banana em fim de feira. Quer ver só? Educação me compra sem esforço algum, simpatia, boa vontade e bom senso também. Além disso, eu me vendo fácil por sorrisos, sem precisar fazer pechincha.

Dia desses fui visitar a minha avó e ela me recebeu com um abraço apertado e um pacote de pão de mel, dizendo: “Entrei no mercado, vi isso aqui e lembrei de você. Não era você que adorava quando era pequena?”. Eu ri e a fiz relembrar das nossas idas ao supermercado, então ela entendeu porque sempre ligava o pão de mel a mim. Desde então eu recebo vários desses pãezinhos regularmente da Vó Verinha, e estes levam uma pitada deliciosa de alegria nostálgica que eu nunca provei igual...

E você? Por quanto se vende?

Roberta Simoni

E-mail: robertasimos@gmail.com


Escrito por Roberta Simoni às 22h02
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O HOMEM INVISÍVEL

 

Quem olhasse pra ele, jamais imaginaria que ele tinha superpoderes. Magro e esmirrado, dava a impressão de não ter mais do que 13 anos de idade, mas tinha mais de trinta. Era subnutrido, por isso, seu corpo ficou subdesenvolvido.

Andava pela cidade com uma vassoura que talvez pesasse mais do que ele. O único peso que ele sentia era o de existir. Trabalhava como gari, o que parecia ser o trabalho perfeito para ele que sempre andou olhando para o chão. Recolhia as folhas que caiam das árvores, limpava a sujeira que os outros faziam, e vez em quando achava alguma coisa reciclável que o interessava e levava para casa, mas era raro.

Dia desses, passei por ele, desejei bom dia. Do jeito que estava, de cabeça baixa, ficou. Segui meu caminho. Tentei outra vez, dessa vez um "Bom Dia" mais animado (!!!), ele levantou a cabeça e olhou para trás, pra ver com quem eu falava. Não viu ninguém e deu de ombros sem entender. Certamente, pensou que se tratava de uma maluca que deseja bom dia ao vento.

O inevitável aconteceu: aquela figura interessante despertou a minha curiosidade. Passei a observá-lo todas as manhãs. Quando eu saia de casa ele já estava lá, hipnotizado com o chão, que varria apático e resignado. Parecia que a vassoura se soltaria daquelas mãos magras de dedos finos a qualquer momento. Deslizava as piaçabas na calçada, passando-as lentamente de um lado para o outro, como a mãe que faz carinho na cabeça do filho.

Se as pessoas pareciam não notá-lo, ele menos ainda as percebia. O máximo que via era pés em chinelos, sapatos e sandálias transitando de um lado para o outro. Provavelmente já havia visto tudo quanto era tipo de calçado nessa vida…

Parei ao lado dele. Ele freou a vassoura, esperando que eu passasse. Não passei, só parei. Ele olhou para os meus pés, sem cogitar a hipótese de olhar além disso. Mas eu estava determinada a fazer contato. E foi com um simples "oi" que ele olhou, incrédulo, pra mim, desta vez, mais pra cima. "Oi???" - ele respondeu num tom que mais parecia uma pergunta.

O senhor faz um belo trabalho aqui todos os dias – falei. Tinha a óbvia intenção de mostrá-lo que nem ele, nem o trabalho que fazia eram invisíveis. Mas a satisfação que eu tentei causar, foi visivelmente substituída pelo susto que dei no homem.

Também pudera… sabe-se lá por quanto tempo ele esteve certo de que não era visto. Estava acostumado à condição de invisibilidade, e até gostava. Usava um uniforme laranja florescente e, mesmo assim, passava despercebido, era como se fosse transparente, como se não existisse. De fato era um feito incrível.

No começo estranhava, achava as pessoas esquisitas. Aos poucos passou a também não notá-las e agora nenhuma diferença isso fazia. Sentia-se invisível e isso era bom, dava a sensação de ser dono de um certo poder, diferente da sensação de impotência que a condição humana trazia.

De repente aparece uma lunática que ignora completamente a sua capa superpoderosa de invisibilidade e estraga completamente a fantasia.

… E eu só queria que ele soubesse que o chão não é o limite.

Roberta Simoni



Escrito por Roberta Simoni às 21h59
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Oi!

Seja Bem Vindo!



Escrito por Roberta Simoni às 21h02
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